Há tempos que entrava no carro com meu pai, subia o morro pra ficar em cima dos fios de eletricidade.
-Pega a pipa lá no porta-mala moleque, dizia.
Nem pensava duas vezes, pegava meu pássaro colorido e corria:
-Aí, aí ta bom. Levanta um pouco. Solta!!!
Meu pai era MESTRE. Em dois minutos estava lá, rasgando o céu, solitária. Não por muito tempo.
-"Alá" moleque, vai pegar, vai enrolando a linha! Vai! Vai!
Em três segundos a pipa já estava em minhas mãos:
-Ufa
Mais um dia com meu pai. Ótimo.
Chegava em casa e a colocava em cima do guarda-roupas. E o tempo foi passando.
As vezes pegava pra tirar poeira, desenrolava a linha embaraçada, guardava de novo...
Mas os nós que ficaram já não desatavam. E cada vez que eu fazia tal coisa eram mais nós se formando. Até que ficavam tão próximos à pipa que não tinha como desatá-los.
Assim é a vida. Uma hora você está no alto, sem ninguém pra atrapalhar, do nada você volta à realidade e vê que está cheio problemas, cheio de nós, mas deixa lá, pra não se aborrecer.
Pois é, acontece que os nós se multiplicam, ficam cada vez maiores e irreversíveis, chegam tão perto de você, que é impossível resolvê-los.
Já fiz tantas vezes isso. Deixei de lado por um tempo e quando vi, estava ali, gigante. Um problemão. :)
Seja breve, resolva, faça. Todos somos capázes. FAÇA.
"E como agir se mãos amigas se transformam em punhais e todos acham que você não é capaz de desatar os nós? "
quinta-feira, 4 de março de 2010
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